Hoje trazemos para vocês mais um excelente artigo do nosso colaborador Pedro B. Deliciei-me do começo ao fim, adorei cada ponto e faço minhas as palavras dele.

Quantos likes você vale? Quem merece o seu like? É isso que move sua vida? Porque? Para que? Você se influencia pelos likes?

Acabei de fazer-me todas estas perguntas após a leitura do artigo abaixo. Vamos a ele?

likes-facebook

“Sicut ergo sum” ou como o facebook inspirou-se em Descartes

Sicut ergo sum” quer dizer “gosto logo sou” e é uma pequena provocação que faço ao leitores do BigViagem em particular e aos “surfistas Web” em geral. E porquê uma provocação? Porque acredito, tal como Descartes, que a dúvida é o mais notável motor do conhecimento humano, conhecimento esse que teve uma brutal evolução quando este notável filosofo e matemático do século XVII, editou a sua monumental obra “ Discurso do método” que revolucionou todo o pensamento humano até então. E esta revolução estava contida numa pequena frase em latim que todos nós conhecemos: “Cogito ergo sum” ou seja “ Penso, logo existo”.

O poder desta pequena frase é muito maior do que parece. Ela encerra em si mesmo um corte abrupto com toda uma estrutura de pensamento herdada da idade média, na qual se atribuía a nossa existência a intervenções de carácter divino e religioso, pouco claras e impossíveis de se provar. Sem assumir uma posição céptica, Descartes lançou o cepticismo para cima da mesa, cepticismo este assente na utilização da dúvida como forma de se chegar ao conhecimento efetivo e lógico. E esta nova perspetiva veio a revolucionar o mundo. Subitamente o destino dos homens estava, afinal, nas suas próprias mãos e não nas mãos de algo divino e inexplicável. Conseguem imaginar agora o poder desta frase “Cogito ergo sum”?

Um novo homem surgiu, agora preparado para novos voos e liberto das garras do misticismo e do divino. Este novo homem levou a revoluções sociais e politicas, acabou com monarquias, instituiu novos sistemas sociais, criou a ciência e levou o conhecimento humano e tecnológico a patamares nunca vistos e com uma velocidade absurda. Todos nós, somos vítimas desta boa ideia que Descartes resolveu um dia colocar em livro. E, pasmem-se, ainda hoje, estamos a sentir as suas ondas de choque. Vivemos num mundo a alta velocidade, onde a performance importa em todos os domínios e onde acreditamos cada vez mais em nós próprios. Mesmo o ato de desencanto com o estado atual das coisas é, na verdade, um sintoma que ainda duvidamos, que ainda acreditamos numa vida que possa ser melhor e que somos capazes de levar à frente as nossas ideias, tal como a mensagem contida na elegante frase de Descartes – “Eu penso, logo existo”.

Este é, creio eu, o principal “mantra” do mundo ocidental. E Mark Zuckerberg, inventor do facebook, sabe-o melhor do que ninguém. Este “tetraneto” de Descartes, ao criar o facebook e, em particular, o brilhante botão do “like” iniciou, também ele uma nova revolução na nossa sociedade de consumo. Hoje em dia, a quantidade de likes que tenho, seja no que for, é definidor da minha personalidade. Poderia acrescentar a palavra eletrónica, mas a verdade é que com a intromissão da internet nas nossas vidas, cada vez mais é impossível separar as nossas personalidades físicas e eletrónicas.

Zuckerberg deu origem a “Sicut ergo sum”, ou seja, ao “gosto, logo sou” e embora ainda estejamos no início desta revolução, ela já está a moldar a nossa existência. E nada melhor do que a indústria do turismo para ilustrar esta revolução.

A nossa sociedade de redes informáticas permitiu a aparição do indivíduo incorpóreo, sem contato físico, cuja janela para o mundo é um ecrã. O falso e o autêntico ganham novas dimensões nestas condições. Visitar uma cidade através do google street view não se pode comparar a uma visita física, é certo, mas quem me diz que não estive lá? Eletronicamente vivi a cidade, os seus monumentos e as suas vistas. Por isso comparar o físico ao eletrónico não pode ser uma boa medida, pois são coisas diferentes.

Trata-se da exploração de uma nova dimensão igualmente válida, numa fase imatura, mas com uma grande diferença – a sua capacidade de conseguir chegar à maioria das pessoas. Veneza pode ser inatingível de avião, mas está à disposição de todos em qualquer ecrã de computador, tablet ou smartphone. E isso é maravilhoso!

Tal como é maravilhoso, no entanto contendo algum grau de perversão, o botão like do facebook que deu origem a este artigo. Eletronicamente, a minha existência está dependente deste botão, e isto é verdade para muitas coisas.

Vejamos o caso de um novo destino turístico. Se eu tiver muitos “likes”, certamente que terei mais sucesso, ou seja, se gostam, logo sou. O mesmo para este vosso próprio blog que tão assiduamente frequentam. Ele está dependente dos vossos “likes” para existir num mercado virtual que garantirá a sua viabilidade. Quantos mais “likes” tiver, mais apostarão no BigViagem, que por sua vez, mais capacidade terá a Kátia Pinheiro de fornecer bons conteúdos a todos vocês, caros leitores. E o mesmo para mim próprio. Os meus textos e reflexões só existem se tiverem leitores, cuja medição através de “likes” é extremamente precisa e eficaz. Eu tenho “likes”, logo existo.