Nos últimos dias temos contado com a preciosa colaboração de Pedro B. para dissertar acerca de temas que habitualmente nos são pedidos pelos nossos leitores e leitoras. Confesso que tenho adorado cada um deles, para mim são sempre artigos envolventes e que me fazem refletir sobre os temas de uma forma diferenciada. Hoje apresento-vos mais uma delicioso artigo de Pedro B. sobre…..

Quero viajar sozinho/a? Para onde devo ir em segurança?

Viajar sozinho/a é um processo, no qual vários fatores são determinantes. Um deles certamente é a segurança, provavelmente o mais importante de todos quando vamos experienciar pela primeira vez uma viagem sem companhia. Nunca deixa de estar presente é certo, e ainda bem, mas à medida que vamos sistematizando rotinas, a ordem das prioridades vai-se alterando e harmonizando-se com as nossas necessidades.

Viajar sozinho é uma aprendizagem por tentativa e erro em que, simultaneamente, vamos testando as nossas capacidades de organização, planeamento e socialização. No início deste processo, o protagonismo da segurança é imenso, pois a falta de experiência, misturada com o medo e a incerteza, gera sentimentos nos quais a urgência é prever e anular qualquer situação que possa implicar risco. Digamos que a dimensão estética de uma primeira viagem a solo corre o risco de ser esmagada e inibida pela incapacidade de gerir a incerteza.

Viajar sozinho
Esta foto que tirei em Estoril (Portugal) acho que ilustra bem este artigo. Um senhor sozinho, sentado num local pouco provável que outro alguém fosse ter a idéia de se sentar, a ler serenamente um livro. O veleiro ao fundo também diz-me muito.  Uma “viagem” sozinho.  Liberdade total. (Kátia Pinheiro © – Bigviagem.com)

E é assim que deve ser. Viajar sozinho/a também é um exercício de afirmação, durante o qual pomos à prova uma série de características que julgamos possuir, mas que, na verdade, nunca as conseguimos avaliar, de uma forma isenta, pois a imagem que temos de nós próprios é o reflexo da opinião e dos juízos de valor emitidos pelos que estão próximos de nós. Sair desta zona de conforto é, portanto, um enorme desafio em que nos vamos submeter aos mais cruel dos juízes – Nós próprios.

Todos os destinos são atraentes. Todos os lugares têm os seus encantos e merecem ser conhecidos e vivenciados. Experienciar natureza é extraordinário, mas também intoxicarmo-nos de cultura é muito compensador, assim como perceber como se vive em condições extremas. São tudo experiências que justificam um investimento da nossa parte e que nos ajudam a moldar a nossa personalidade e a nossa identidade. E se o fizermos sozinhos ainda temos a grande vantagem de podermos fabricar histórias e estórias exclusivamente à nossa medida.

Para tentar responder à pergunta formulada no título deste artigo, julgo ser importante traçar uma linha temporal que, de alguma forma, seja capaz de perspetivar os estágios evolutivos inerentes à grande aventura de viajar sozinho, estágios estes onde a segurança começa com um grande destaque e depois vai-se diluindo à medida que nos vamos conhecendo a nós próprios e nos permitimos arriscar.

Assim, como europeu e português (não poderei discorrer em nome de outras nacionalidades ou geografias porque não detenho um conhecimento suficiente sobre a realidade de outro país que não o meu), optaria para minha primeira viagem sozinho por escolher um país relativamente próximo, altamente civilizado, com códigos semelhantes aos meus e com infra-estruturas bem desenvolvidas: Copenhaga, na Dinamarca, seria a minha escolha. Não existem problemas de segurança e os Dinamarqueses possuem um elevado índice de felicidade e ainda teria a oportunidade de conhecer um país da Escandinávia, região que sempre me fascinou.

Na minha segunda viagem arriscaria um pouco mais. Escolheria, sem qualquer margem de dúvida, a Itália. Este país fascinante combina a sofisticação, a cultura e a urbanidade com uma grande dose de “sacanice” e incerteza. Esta seria, para mim, uma viagem de sonho.

De seguida, faria uma experiência de conhecer 2 países e 2 continentes numa só viagem. Apanharia primeiro o avião em direção à Grécia e após uma degustação composta por cultura grega e ilhas paradisíacas, embarcava em direção à Turquia. A bela Istambul tem uma capacidade única de nos fascinar e uma mistura explosiva entre ocidente e oriente, sofisticação e perigo, incerteza e encantamento. E aqui começa uma nova etapa na minha formação de viajante solitário.

A minha próxima etapa seria o continente americano. Começava pelos Estados Unidos. Investiria muito nesta viagem para tentar conhecer o máximo deste grande país. Provavelmente teria de voltar uma segunda vez, mas seria mais tarde.

E finalmente o Brasil. Todo o Brasil, com as suas praias, as suas cidades, a bossanova e a amazónia. Esta viagem, a par da Itália, seria o concretizar de um velho sonho. Com a experiência já acumulada das anteriores viagens, tenho a certeza que o Brasil inteiro estaria nas minhas mãos, surpreendendo-me a cada esquina. Seria também um grande repositório de histórias para contar, tenho a certeza.

A Ásia seria o destino escolhido para a minha 6ª viagem sozinho. Começava pela China e terminava na Tailândia, Malásia, Laos e Cambodja. Se tivesse tempo ainda daria um salto à indonésia. A Índia ficaria para mais tarde.

A esta altura já era detentor de um grande acervo de histórias e por isso voltava a investir no meu velho continente. Desta vez embarcava em direção à terra dos vulcões. Islândia seria o meu próximo destino e com sorte poderia finalmente presenciar auroras boreais e géisers em ação.

Após a Islândia era altura de “atacar” a misteriosa África. Começaria pela África do Sul e Moçambique. Subira para o equador e iria visitar São Tomé e Príncipe. Acabaria esta aventura africana no Egipto, rodeado de monumentos farónicos e mercados de especiarias. A componente segurança nesta altura era revista. O fascínio de África contém também muitas doenças e condições sanitárias deficientes em muitos locais. Arriscar-me a passar parte a viagem num hospital é uma perspectiva aterradora.

Não poderia deixar de voltar ao continente sul-americano. Montevideo, Buenos Aires e Santiago do Chile seriam as próximas vítimas. Se tivesse tempo ainda daria um salto à ilha da Páscoa e às Galápagos.

Fechava este ciclo de viagens com uma incursão no continente australiano com todos os seus mistérios e magia para desfrutar durante, pelo menos, 1 mês.

De fora ficaram vários países e zonas do globo. Índia, América central e México, Europa de Leste e Rússia, Ásia central e Japão, todos eles irresistíveis e à minha total disposição. O seu grau de risco e de segurança é considerável e como pode o leitor/a observar não os incluí, de uma forma espontânea, no meu roteiro de viagem. Isto tem a ver com a tal perceção sobre a segurança que é sempre condicionada pela falta de experiência. Tivera eu a sorte e a oportunidade de ter cumprido algumas destas viagens de que vos falei, então certamente o menu de viagens que aqui vos apresento, estaria, certamente, diferente.