Hoje o nosso colaborador Pedro B. fala sobre um tema que geralmente os viajantes adoram. Se você gosta de viajar é quase certo que também adora souvenirs. Eu adoro souvenirs, aliás gosto tanto que tenho um monte de souvenirs inclusive da cidade onde vivo cá em Portugal. Assim como os amantes de viagem,  eu acho que uma viagem sem um souvenir não é viagem. Quando viajo, sempre separo uma verba destinada as “tranqueirinhas” que vou vendo pelo caminho e claro não resisto comprar. E vocês? Concordam? O que acham do souvenir?

O dilema do souvenir

O dilema do souvenir

O souvenir é indissociável do turismo e traduz um sentimento universal a todas as culturas e geografias. Qualquer cidade ou lugar que vamos está munido de locais repletos de objectos capazes de nos despertar esta necessidade que temos de perpetuar a nossa memória. Trata-se, portanto, de uma espécie de materialização da memória. E porque é que temos necessidade disso? Será que não basta a nossa memória? Será que as fotografias são insuficientes? Porque é que a indústria dos souvenirs continua a ter sucesso depois de tantos anos e assente num modelo com muitas poucas variações? Porque é que não nos fartamos dos souvenirs? E porque é que os compramos sabendo de antemão que esses objectos presentes nas lojas de souvenirs são tudo menos autênticos (nem que seja pelo facto de estarem numa loja de souvenirs e não no seu habitat de origem)?

Julgo que a resposta se encontra associada a um conceito que me encanta sobremaneira. A indústria dos souvenirs tem sucesso e nunca deixará de ter porque, acima de tudo, uma viagem é a mais perfeita tradução do efémero. Segundo a wikipedia, o efémero são coisas ou sentimentos que são transitórios, passageiros ou que duram pouco tempo. Trata-se de uma definição fria e bastante concreta. No entanto, o efémero é um território vastíssimo que alimenta a nossa imaginação como poucos conceitos e que serve, frequentemente, de ponto de partida a poetas, músicos, pintores, artistas em geral, políticos (porque não?), desportistas, enfim, todos têm lugar nesse maravilhoso conceito com uma capacidade de fascinação ímpar.

Gerir os sentimentos efémeros também é uma magna tarefa. Sendo uma viagem efémera, ou seja, uma coisa transitória, passageira, como fazer para tirar o melhor proveito dela e não me frustrar quando chega ao fim? Julgo que a má gestão do efémero deverá ser a principal causadora do flagelo da depressão que nos assola. Mas se eu compreender a magnitude do efémero, tenho a certeza que não só tirarei mais proveito daquele momento que durou pouco tempo, como terei a capacidade de o integrar no meu quotidiano e torná-lo um pouco menos passageiro.

Os souvenirs são uma espécie de antídoto contra o efémero e quem os fabrica sabe-o muito bem. Saber que uma coisa boa irá acabar em breve não nos é agradável. Os nossos instintos levam-nos a querer perpetuar esse sentimento a qualquer preço. É uma coisa animal, descontrolada. Quem nunca sentiu uma espécie de mini depressão quando regressamos a casa depois de uma viagem fantástica? Pois bem, os souvenirs ajudam-nos nesses momentos, qual anti-depressivo, e combatem esse vazio que se instala, pois remetem-nos para sensações boas, para memórias de momentos extraordinários. Os souvenirs são uma espécie de fantasma da nossa viagem que nos assombra e nos ajuda a esquecer as agruras do nosso dia-a-dia.

Mas não são suficientes e, quanto a mim, retiram um pouco da poesia do efémero que tanto gosto e que julgo ser o ingrediente secreto das viagens. Mas isto significa que os souvenirs deverão ser banidos ou ignorados? Julgo que não. Acabar com os souvenirs seria acabar com uma tradição e um sentimento intrínseco à nossa condição de seres humanos. O souvenir é muito mais do que um produto turístico. É uma memória materializada, um sentimento com átomos e isso tem um valor incalculável. Desde sempre, desde o início dos tempos, que nós coleccionados souvenirs, desde as cabeças dos nossos inimigos, até às pedras preciosas e obras de arte. O que defendo é que nós, enquanto beneficiários do souvenir, devemos conferir um valor mais nobre, quase transcendental, a estes peculiares objectos.

Este é o verdadeiro dilema do souvenir: Como fazer com que um objecto tenha a capacidade de perpetuar o efémero? E se falamos de perpetuação então o efémero deixa de fazer sentido. É aqui que entra a poesia. É aqui que o souvenir nos vai ajudar a encontrar o caminho do efémero e nada mais.