Hoje o Bigviagem, traz para vocês mais um texto do nosso colaborador Pedro B. Infelizmente, para mim, e creio que para todos os leitores que apreciam os artigos do Pedro, este será o último.

Só tenho a agradecer ao Pedro B. pela gentileza nestes últimos meses de nos ter brindado com textos de altíssima qualidade e (na minha opinião) grande genialidade.

É bom saber que em Portugal, ainda temos “Pedros B.”, para mim é um alento diante de tanta mediocridade e idiotice que presencio no dia-a-dia. Obrigada Pedro B.!

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A semente da violência

A minha semana começou como sempre. Levantei-me, fiz a minha higiene matinal, acordei os meus filhos, dei-lhes pequeno almoço, levei-os à escola e voltei para a minha casa para programar o meu dia e a minha semana de trabalho. Tudo normal, tudo dentro da rotina. Mas no retorno a casa, após deixar os meus filhos na escola, presenciei um fugaz momento de extrema violência entre 2 condutores, provavelmente a caminho do seu trabalho, quando estava parado num semáforo. Ao realizar este momento, começaram os “hyperlinks” dentro da minha cabeça que me levaram a escrever este artigo. A minha semana começou com violência e esse não é um sentimento que me agrada, por isso peço-vos desculpa, mas desta vez é assim.

O fugaz momento de extrema violência que presenciei passou-se entre 2 condutores. Enquanto estava à espera que o meu semáforo passa-se para verde, constatei que na faixa de rodagem contrária, um condutor dos seus 50 anos, abriu a porta do seu veículo, deixando a sua mulher no interior, e correu em direcção ao automóvel em frente dele para lhe dar um pontapé. Ensaiou o pontapé, mas não acertou, pois o veículo “vítima” arrancou a tempo. Mas, eis senão quando, cerca de 10 metros à frente, ouve-se um chiar de pneus e de dentro do veículo sai um jovem dos seus 30 anos, bruscamente e em corrida em direcção ao seu oponente. Bem no meio da estrada, os dois condutores envolveram-se numa briga, como murros, pontapés e sei lá o que mais, pois, entretanto, tive de arrancar e perdi o resto da cena.

O que é que levou a que 2 condutores, sem qualquer historial entre eles, se envolvessem numa luta, matinal, a caminho do trabalho, no meio da estrada, na presença de dezenas de outros veículos, todos eles também a caminho do trabalho? Que razões levam a que 2 pessoas proporcionem este deplorável espectáculo, assim, sem mais nem menos, de uma forma gratuita e inusitada, resultante de uma escaramuça de trânsito? Tem de haver muitas outras razões que vão muito mais além do acto rodoviário em si, pois a violência empregada era tal que, claramente, ambos os condutores estavam a extrapolar algo mais do que apenas uma manobra mais arriscada ou desrespeitosa.

No cruzamento a seguir cruzo-me com um carro da polícia com uma decoração diferente da habitual. Tratava-se de uma brigada especial da polícia criada para o turismo. No meu país não tinha conhecimento destas brigadas, até porque, creio viver num país altamente civilizado no qual o turista faz parte da paisagem social, tal como outro cidadão qualquer. Sucedeu-se o primeiro dos meus “hyperlinks” mentais fruto da correlação entre este acontecimento e a luta presenciada no semáforo mais abaixo – A violência não só está presente no nosso dia-a-dia, como assume as mais estranhas formas dissimuladas. Para existir uma brigada desta natureza é porque algo de muito errado se está passar com os turistas que nos visitam. E se é da policia que estamos a falar, certamente a violência estará envolvida.

Depois foi uma torrente de “hyperlinks” que correu. O cinema está carregado de violência, que confunde este sentimento com emoções fortes e abusa de uma receita assente na exploração da imagem-excesso desenhada para que o receptor se sinta poderoso e perfeito como o herói que desfila na tela diante de si. A televisão intoxica-nos de violência, desde aquela que é usada nas notícias até simples trocas de palavras nos programas da manhã, onde apresentadoras impreparadas e irresponsáveis incitam os espectadores a fazerem justiça pelas próprias mãos ou a desrespeitar inúmeros pilares civilizacionais que fazem parte da nossa identidade enquanto povo, enquanto nação. É como se a violência deixasse de se constituir como um tema em si e passa-se a fazer parte da receita “estética” aplicada a estas produções, como se deixasse de fazer parte da narrativa e passasse a constituir-se como a essência destes produtos.

A violência também se manifesta em paradoxos interessantes. Tóquio, a maior metrópole do mundo, com cerca de 26 milhões de habitantes, caracteriza-se como a cidade mais segura do mundo. No entanto, é nesta cidade que mais se consome violência, materializada nos milhões de livros de banda desenhada “manga” que se vendem diariamente, abordando assuntos de extrema violência, física, sexual e emocional. O Rio de Janeiro, berço da Bossanova e do “easylife”, do amor pelas coisas simples e naturais é assolado desde há muitos anos por episódios diários de extrema violência, desde raptos, a assassínios e roubos. Os países árabes que submetem a sua constituição ao primado da teologia, assente nas leituras do Alcorão, apresentam índices de crime e de roubo muito abaixo de todos os restantes países. Mas são nesses pacíficos países que surgem aberrações como a Irmandade Muçulmana que está a redefinir os próprios cânones da violência, usando esta como elemento de um espectáculo que ninguém quer ou deseja, mas que nos é imposto de uma forma implacável.

E poderia continuar a expor-vos os meus “hyperlinks” que resultaram daquele incidente matinal, mas vou-vos poupar a isso, porque este artigo ganharia contornos de um ensaio interminável, pois a violência poderá ser aferida de praticamente todos os actos e detalhes da nossa vida. Inclusive a não-violência é, em si, um acto de violência. Deixaria de o ser se passássemos a chamar a violência de “não-pacífico”, o que soa muito estranho, ao passo que a “não-violência” faz parte do nosso léxico (a título de exemplo, o meu corrector ortográfico automático assinala como erro o “não-pacífico” enquanto a “não-violência” assume como correcto – a violência também tece as suas teias junto dos correctores ortográficos automáticos).

Mas o que tem tudo isto a ver com o assunto que o fez chegar até aqui ao Bigviagem? Será que a violência também é um dos ingredientes presentes na indústria do turismo? Sem dúvida.

Desde os atentados terroristas dirigidos a turistas, que funcionam como um “statement” politico para o resto do mundo, esquecendo-se os terroristas que as pessoas que executaram provavelmente estiveram a vida toda a acalentar um sonho que finalmente se realizou, até à ditadura imposta pelo mercado que obrigam um país a subjugar-se a imperativos de consumo para satisfazer hordas de turistas sem qualquer preocupação pelo meio que visitam. Este tipo de violência destrói culturas e identidades sem qualquer misericórdia, tudo em função do dinheiro fácil e imediato, com resultados satisfatórios a curto prazo, mas absolutamente destrutivos no médio e longo prazo.

Poderíamos viver sem violência? Não, não poderíamos. Ela faz parte, como já o disse, da condição humana. Mas temos a obrigação de a reconhecer, de a contrariar e de a reinventar com o intuito de fazer com que cada uma das suas estocadas seja menos prejudicial para nós, enquanto turistas, enquanto cidadãos, enquanto seres humanos. Novas formas de violência serão inventadas, certamente, mas a nossa luta será implacável, “violenta” mesmo, para que num futuro próximo possamos empregar a “interrupção da paz” no lugar de “violência”.

E é com a violência que me despeço de todos vós, leitores do Bigviagem. Foi um prazer partilhar com todos vós mais de 26.000 palavras ao longo de 26 artigos. Deixo um agradecimento especial à Kátia Pinheiro por me deixar intrometer no seu blog. Obrigado e bem hajam.