Olá leitores e leitoras do Bigviagem, hoje, eu, Kátia Pinheiro e nosso colaborador Pedro B.,  trazemos para vocês um artigo que vos fará refletir  sobre a felicidade, viagens e afins. Então? Dispostos a pensarem sobre o que se passa connosco? 😉

Felicidade Paradoxal

A felicidade paradoxal – Reflexão do BigViagem como prólogo a um novo ano que se avizinha

Segundo a definição do wikipedia, um paradoxo é uma declaração aparentemente verdadeira que leva a uma contradição lógica, ou a uma situação que contradiz a intuição comum. Em termos simples, um paradoxo é “o oposto do que alguém pensa ser a verdade”.

Segundo esta mesma fonte, a felicidade é um estado durável de plenitude, satisfação e equilíbrio físico e psíquico, em que o sofrimento e a inquietude são transformados em emoções ou sentimentos que vão desde o contentamento até a alegria intensa ou júbilo. A felicidade tem, ainda, o significado de bem-estar espiritual ou paz interior.

Tratando-se do fecho de um ciclo anual, discuti estes conceitos com a Kátia Pinheiro, que achou muito interessante, e decidimos produzir, em conjunto, esta reflexão com o objetivo de munir os leitores e leitoras do blog BigViagem de novas ferramentas para tirar o melhor proveito possível de um grande ano que se avizinha, independentemente dos condicionalismos económicos, sociais ou políticos que se adivinham, na maior parte dos casos, adversos.

A junção destes dois conceitos – a felicidade paradoxal – é da responsabilidade do filósofo francês Gilles Lipovetsky que dá título a um ensaio no qual ele explora a nova sociedade de consumo em que as pessoas consideram-se mais felizes do que nunca, mas por outro lado a percentagem de insatisfação com o trabalho e com a profissão nunca foi tão grande. Gera-se um paradoxo de pessoas felizes a meio tempo. A felicidade não pode estar isolada ou compartimentada, assim como o trabalho não poderá ser isolado da vida quotidiana. É um paradoxo interessante, não é? Durante uma parte do dia somos felizes e na outra parte do dia somos extremamente infelizes. Trata-se de um paradoxo, pois a nossa infelicidade no trabalho, deveria levar a uma vida menos feliz, ou vice-versa, mas não se trata disso. Assumimos dois estados contraditórios sem qualquer razão aparente. O que é que se passa connosco?

Passa-se uma grande confusão, porque, na verdade, chegamos a um momento civilizacional que nos permite pensar e discutir a felicidade sem qualquer pudor. Nunca antes, na história do ser humano se verbalizou tanto este conceito. Nunca antes se perseguiu tanto este estado de graça e isso é, só por si, um grande avanço civilizacional. Há países em que o índice de medição de felicidade dos seus cidadãos tem tanta ou mais importância do que o PIB.
Discutir, conceptualizar, teorizar e duvidar da felicidade é um grande feito de que devíamos estar orgulhosos, mesmo que achemos que tudo o que temos não se aproxima da felicidade que desejaríamos ou que imaginamos. Porque a felicidade não passa mesmo disso: de uma imagem que projetamos para nós próprios, para os que estão à nossa volta, para os que vivem connosco num determinado espaço geográfico e político, vulgo, país ou nação. E uma imagem que vai mudando ao sabor das nossas necessidades, gostos, tendências e possibilidades. É um conceito tão frágil que está sujeito à nossa idade e mesmo ao acaso. É um privilégio poder dar-nos ao luxo de pensar na felicidade.

E mesmo que estejamos, indubitavelmente, a atravessar momentos menos bons, económica e socialmente falando, a felicidade não foi, nem deve ser posta de parte. Estamos numa crise, durante a qual fomos obrigados a rever e a adaptar um conjunto de hábitos e rotinas que antes dávamos como adquiridos e iniciar esse processo é sempre muito doloroso. A mudança é dolorosa, mas nem por isso tem de ser negativa. Existem sempre dois lados da moeda com aspetos positivos e negativos. Compete-nos conseguir encontrar e interpretar da melhor forma possível o lado positivo que está à nossa disposição.

Transportando isso para o mundo das viagens e do turismo, para o mundo do BigViagens, ao perdermos a nossa capacidade de consumo, somos obrigados a deixar de pensar em determinados destinos que deixam de estar acessíveis por um conjunto de novas situações geradas pela crise. Trata-se de uma situação dolorosa certamente, de um lado negativo. Por outro lado, somos obrigados a pensar o turismo como algo mais do que apenas um determinado destino. Passamos a pensar o turismo como algo que ultrapassa a dimensão física, que é imaterial e aspiracional, e mesmo que tenha de trocar o fim da minha rua por uma viagem ao continente australiano, o que conta é aproveitar este momento, sem vergonha, sem complexos. E tudo isto está a fazer com que viajar está a deixar de ser um sonho inalcançável para passar a estar incluído nas nossas “lista de compras emocional”. A questão já não é “se consigo viajar”, mas sim “quando vou viajar”, seja até aos nossos antípodas, seja, até ao fim da nossa rua.

Veja-se o sucesso que neste momento a literatura de viagens tem. A sua ascensão deriva do facto de, neste contexto de crise, não dispormos de tempo ou dinheiro para despender em viagens? Definitivamente não.

Derivado a uma conjuntura económica favorável recente, muito de nós tiveram a sorte de viajar, de “turistar” por inúmeros destinos turísticos oferecidos por “tuta e meia” pelos operadores de viagens e aproveitaram o suficiente para que, termos como “turismo de massa” entrassem no nosso léxico comum. E ao experimentar esta “injeção hedonista” ficamos viciados, a tal ponto que já não basta escolher um destino.

A construção deste estado de graça foi-nos proporcionada por uma sociedade de consumo desenvolvida e, até há pouco tempo, aparentemente próspera. Fazer desta condição um valor adquirido é o nosso próximo desafio. O jardim está plantado e agora precisa de tratamento e assistência. Estabelecer novos padrões éticos e morais pode ser o substrato que este jardim necessita e aqui as novas formas de turismo podem e devem desempenhar um papel de destaque, envolvendo o viajante com algo mais do que programas turísticos sem interesse e hordas de turistas impreparados para lidar com o deslumbre e as maravilhas estão à nossa disposição… seja no fim do paraíso, seja no fim da rua.

E aqui chegamos, finalmente, ao paradoxo: esta crise retirou-nos possibilidades, ou, pelo contrário, ofereceu-nos novas possibilidades?

Fica esta reflexão para os nossos leitores.

Boas festas e um ano de 2015 memorável, na companhia do BigViagem!