Hoje mais uma vez contamos com a preciosa colaboração de Pedro  B. num artigo  que novamente vos põe a refletir! Tenho certeza de que vão gostar. Vamos a ele?

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A colonização do nosso ser

A nossa vida intelectual e os nossos espaços públicos estão a ser colonizados pelas marcas e pelo marketing. Para que uma sociedade seja saudável é muito importante manter e cultivar os espaços públicos nos quais nos possamos afirmar como cidadãos e não como consumidores. Será que ainda existe esse espaço ou já o perdemos totalmente?

Este é um ponto de partida para uma reflexão que cada vez mais se impõe, tendo em conta o momento actual do nosso país. Estamos em crise e a sua maior expressão, certamente, será sentida na capacidade de consumo que nos assiste enquanto cidadãos.

Passamos de um mercado de consumo que pretendia antecipar e satisfazer as nossas necessidades para um mercado que passou a criar novas necessidades e agora até se propõe a construir relações emocionais com os seus consumidores.

Ao entrarmos neste último campo, os limites deixam de ser claros, passando a ser legítimo às empresas empreenderam qualquer tipo de acção, recorrendo a doses massivas de técnicas de branding para conquistarem um pouco de espaço na mente dos cidadãos e, assim, lentamente, iniciarem a transformação dos cidadãos em consumidores, ávidos de produtos sem utilidade, sem vontade própria e com uma falsa sensação de segurança, proporcionada por uma sensação de harmonia artificial, criada em laboratório pelas marcas que povoam o nosso quotidiano.

A nossa mente está a ser colonizada por ligações emocionais falsas e que, por vezes, nos poderão levar a reacções condicionadas e naturalmente opostas à nossa condição enquanto pessoas, enquanto cidadãos.

E agora coloca-se o grande desafio: Com esta crise, vamos reconquistar os nossos espaços públicos livre das marcas porque não temos capacidade de consumir ou porque o nosso modelo de sociedade de consumo já se esgotou? Ou será que a condição de cidadão foi esquecida e mesmo substituída pela condição de consumidor e as marcas vão encontrar um novo modelo de consumo que nos satisfaça?

São legítimas perguntas de um curioso que vos escreve estas palavras e que neste momento está a magicar como é que a “dona” deste blog estará a digerir estas palavras, enquanto detentora, e vamos assumi-lo sem qualquer pudor, de uma marca.

Pois bem, acredito que projetos como o BigViagem são extremamente positivos para a nossa condição enquanto consumidores, pois o seu objetivo primordial é a informação e não a venda e por isso nos lembram que, antes do consumidor colonizador, existia e existe um cidadão dentro de nós, com preocupações de cariz comunitário e social, preocupações que se sobrepõem ao consumo pelo consumo e que nos ajudam a combater a militância hedonista exacerbada que grassa como uma rolo compressor nas grandes cidades e centros de consumo.

São projetos como este que têm a capacidade de nos “obrigar” a uma introspeção séria sobre os nossos modos e hábitos de vida contemporâneos, de uma forma verdadeiramente eficaz, uma vez que nos impactam como consumidores, como qualquer outra marca, mas veiculando informação desprendida de obrigações comerciais e que vai de encontro às nossas expectativas enquanto consumidores e enquanto cidadãos que todos aspiramos a ser.